Corre, pela tua vida!

“Run for your life” é uma expressão muito americana, normalmente usada num contexto trágico-cómico, em que temos de correr para salvar a nossa vida.

“Run for your life” é uma expressão muito americana, normalmente usada num contexto trágico-cómico, em que temos de correr para salvar a nossa vida.

Mas esta frase podia perfeitamente perder esse lado cómico e aplicar-se cada vez mais ao dia-a-dia de todos nós. É que o acto de correr está, efectivamente, a salvar a vida de todos os que o fazem, ou, pelo menos, a dar-lhes mais anos de vida.

Hoje em dia parece que correr é uma moda. Já ouvi, inclusive, uma menina a dizer que só corre porque agora toda a gente o faz. Confesso que quando o ouvi, apeteceu-me bater naquela miúda — que devia ter uns 14 anos — mas depois comecei a pensar melhor naquilo e os instintos violentos abrandaram. Foi então que percebi que se a corrida for, para alguns, apenas uma moda, uma coisa conjuntural, então, que mal é que tem? Absolutamente nenhum. É que, tal como os cigarros, a corrida também pode saber mal nos primeiros tempos, mas depois entranha-se, consome-nos, ao ponto de nos levar a saltar da cama às 6 da manhã em dias de chuva para irmos para a estrada. Todos os que, hoje, querem aderir à moda, vão estar sujeitos a isso, a serem apanhados pelo vício, um vício bom, diria até que é o melhor vício que se pode ter. E depois não o conseguirão largar, mesmo que o acto de correr passe de moda.

A verdade é que a moda pegou mesmo. E continua a crescer. Não há fim-de-semana algum em que não haja provas importantes, e em cada uma delas há cada vez mais inscritos, gente de todas as idades, homens e mulheres, jovens e idosos, atletas que querem bater recordes pessoais e pessoas que só ambicionam chegar ao fim. E estas são muitas, aos milhares, gente que sabe o sabor que tem cortar uma meta, mesmo que ela já tenha sido estraçalhada por 10 mil outros concorrentes que por ali passaram primeiro.

Foi isso que senti, há dias, quando corri a Maratona de Lisboa, a minha segunda prova de 42,195 km. Pelo caminho, e quando o corpo já não me obedecia, quando até o cérebro parecia cansado, emocionei-me com uma senhora que resolveu ir dar apoio aos atletas. Foi para a beira da estrada e ergueu uma enorme tarja com as palavras: “Campeões são vocês todos”. Não sei se foi dos desequilíbrios causados do esforço, se apenas da força das palavras, mas aquela frase mexeu comigo e deixou-me à beira das lágrimas. O cartaz estava colocado perto do quilómetro 35, já depois do Terreiro do Paço, em Lisboa. Quem a lia, já vinha a correr desde Cascais, ou seja, já teria seguramente mais de 3 horas de prova nas pernas, já estaria num estado debilitado, a precisar de todo o apoio necessário. E aquele foi o impulso que me deu força para continuar, para me empenhar mais um pouco, galgar mais uns metros ao meu ritmo de tartaruga esforçada. Na verdade, todos os que ali chegam são campeões. Todos os que decidem correr uma prova de 42 km são campeões, porque só quem já passou por isso sabe o esforço, a dedicação, a força de vontade que é precisa para não se desistir.

É por isso que eu digo que “Corre, pela tua vida” deveria ser um lema adoptado por todos. Porque correr dá-nos vida presente e vida futura, dá-nos força, ambição e capacidade de sofrimento, seja na estrada, seja no trabalho, correr faz de nós pessoas mais resistentes e saudáveis, menos sedentárias, mais activas, fortalece-nos o coração, dá-nos alma aos pulmões e cimenta-nos os músculos.

Começar a correr só depende de cada um de nós. E se a vida passa a correr, então, é bom que não a tentemos perseguir apenas a andar. É hora de correr.